10 de jan de 2013

Com gouache, acrílica, aquarela, papel toalha, papel vegetal e caneta 0,2.

Ilustração do conto "A Carta Gorda" da escritora/dramaturga Martina Sohn Fischer.

( A carta gorda )


     O sebo borrou as letras da carta que enviei, mas tenho certeza que existe um jeito de ler em voz alta. As palavras precisam ser faladas, com a língua vermelha, com muita saliva. A carta deverá ser comida após a leitura, com tanta gordura o leitor poderá se afogar. Todos os movimentos devem ser feitos com cuidado, lentamente, a carta é pesada, o carteiro levou horas para entender o peso dela. Eu, na varanda, babei de tanto rir, me afoguei, bebi água e ri até o café ficar pronto e o cigarro apagar.
      Levei alguns dias para escrever a carta. A demora maior foi para conseguir levantar a caneta e colocá-la sobre o papel. As primeiras letras me fizeram sangrar. Escrevi aos poucos, perdia-me nela, algumas vezes passei dias perdido lá, no meio de tanta gordura, sem poder abrir os olhos. Dia a dia eu escrevia e vomitava gordura, enxugava as mãos e a boca com a manga da blusa. Depois que terminei a carta, o quarto ficou inabitável, escorregadio e carregado com um cheiro fétido esquisito. Nos últimos dias a carta gorda escreveu-se por si só, solitária e gorda, nojenta, escreveu suas palavras em suas folhas e assinou, aquilo pertencia a ela mesma, toda a gordura e tantas letras, o cheiro e o sebo, eu não tinha nada com aquilo, fui apenas o invólucro. Passei algumas noites fora do quarto ouvindo a carta se escrever gordurosa.
      Um dia ela se fechou dentro de um envelope que já continha um endereço, levei a tarde toda para levar até a caixa de correio no jardim, arrastando, suando, sem ar, finalmente consegui, depois esperei pelo carteiro, não consigo calcular quanto tempo levou.
      Agora a carta está sendo lida, sinto nos dedos um choque estranho, ainda sinto o cheiro fétido. Em voz alta, terrivelmente alta ela está sendo devorada.
A carta gorda foi devorada e eu devorei as pontas dos meus dedos, o cheiro está aqui como sombras e me devoram também. Sombras fétidas.


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